Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Parva, imbecil e idiota
Fim de tarde em Berlim. Junto à Gedächtniskirche grupos de turistas passeiam-se pelas bancas de postais, contemplando a Igreja e o que ficou dela.. Ao fundo o Kurfürstendam, sem a elegância de outrora, ainda assim imponente, árvores que se erguem de um lado e de outro. Dou uma volta, deito o olho aos postais, cumprindo parcialmente a minha existência de turista na mais emblemática do século XX e do outro lado da praça avisto a desgraça das desgraças, a tentação das tentações, mesmo com poucas horas de sono pelo voo madrugador aquilo a que resisto jamais: uma livraria. Do outro lado e em rebordo redondo ladeando a praça, as parangonas anunciavam o espaço, ainda mais evidenciado pelas bancas de saldos ou livros de ocasião no passeio. Faço um desvio. O Kurfürstendam pode esperar, dez dias seriam. Entro, como sempre, na senda das novidades e tendo em conta que já não visitava solo germânico há uns anos acorro fazendo mentalmente as contas do que perdi naqueles anos de ausência. No escaparate do lado esquerdo as novidades, nada pior para uma alma geminiana, a novidade, e deparo com um livro que havia de trazer na bagagem, um dos muitos.
O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal.
No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado.
A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets.
Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.
O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal.
No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado.
A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets.
Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.

Também no Delito de Opinião
Muros
Há novos muros de Berlim, novas cortinas de ferro, novas barreiras, ódios velhos renovados. Os famintos e perseguidos batem à porta dos prósperos — prósperos estes muitas vezes às custas dos que exploraram tanto tempo — e as portas se fecham. O diferente é visto com desconfiança ou desprezo. O diferente é inimigo, o fanatismo substitui a razão e a fraternidade, as religiões humanistas se pervertem, o homem é cada vez mais o lobo do homem.
João Ubaldo Ribeiro, (1993), Um Brasileiro em Berlim, Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Domingo, Novembro 08, 2009
O direito à memória
Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte é tão discutível como nos perdermos em considerações sobre o ovo e a galinha. Tenho, não obstante, como certo que coexistem numa relação absoluta de interdependência e que os contextos sociais e políticos são muitas vezes impulsionadores de novas correntes literárias ou tendências.
Foi assim, quando em 9 Novembro de 1989, o Muro de Berlim foi metaforica e literalmente derrubado pela vontade dos homens e mulheres sedentos de mudança. O mundo geográfico alargou-se, fronteiras foram quebradas e com a abertura do Leste e a reunificação da Alemanha, uma nova ordem social surgiu. O encanto foi definhando com a passagem do tempo e as dificuldades de adaptação de ambos os lados intensificaram-se. Seriam afinal ein Volk – um povo só?
E o que tem a literatura a ver com tudo isto? Durante as décadas em que o mundo se dividiu, uma geração cresceu. Desconhecendo as diferenças entre o Leste e o Ocidente, assumiu como sua a realidade quotidiana dos países em que viviam. Sem nunca ter sofrido a separação violenta iniciada em 13 de Agosto de 1961, tinham histórias para contar, histórias além da História, histórias e aventuras de uma infância e adolescência mais ou menos feliz, mais ou menos colorida mas tão legítima como qualquer outra. Surgiu pois uma nova geração de escritores cuja temática central se debruça sobre a vivência anterior a 1989. Thomas Brussig e Jana Hensel são penas dois dos muitos autores que invadiriam o mercado editorial alemão. Brussig destaca-se pelo tom irónico e leve com que aborda a vida para lá do Muro e preenche com palavras o imaginário mitificado do Leste visto pelo Ocidente, enquanto Jana Hensel distingue-se pelo seu carácter autobiográfico, não-ficcional, portanto.
Na Alemanha, esta novíssima literatura não foi acolhida de braços abertos como haviam sido os cidadãos da RDA em Novembro de 1989. Frequentemente acusados de leviandade na abordagem de uma questão tão sensível como a história contemporânea alemã na segunda metade do século XX, e, em casos mais extremos, de desejar o regresso do passado e, com ele, o regime totalitário da RDA, os autores defendem-se, exigindo a legitimidade das memórias apolíticas que forjaram sua matriz.
E, porque acredito que existe memória sem cor política, não posso concordar mais: que faria com a memória da minha primeira ida ao teatro no defunto Monumental para ver o Pinóquio, titubeante e mínima, pela mão segura do meu querido pai? Deito-a fora, apenas porque aconteceu antes de Abril de 74? E o que faço à memória do homem da bolacha americana empurrando um carrinho verde pelo areal infinito e agreste da Figueira da Foz? Faço delete? Lembrar não é necessariamente homenagear ou militar, logo, lembrar a RDA não implica a observância do sistema político então vigente, tal como as memórias de antes de 1974 não atiram os seus donos para as secretárias da António Maria Cardoso, felizmente para mim. A memória é a matéria de que as vidas são feitas, sem ela não há passado e, sem passado, dificilmente chegaremos ao futuro.
Texto repescado do baú da memória
Na fotografia Ampelmann ou Ampelmännchen, um dos símbolos da RDA, transformado em objecto de culto e comercializado em todo o tipo de parafernália para saciar a fome voraz dos turistas. Pode ser encontrado agora pela cidade inteira.
Sábado, Novembro 07, 2009
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Necessidades
Às vezes, se me perguntam o que faria se ganhasse o Euromilhões, a resposta é a de sempre. Além de uma ou outra melhoria pontual na minha qualidade de vida, o dinheiro servir-me-ia para fazer aquilo que surge em primeiro lugar destacado: viajar. Muito.Tudo o resto posso fazer enquanto viajo: ler, conhecer, passear, ver rua e museus e gente, deter-me a ver o movimento ou a tranquilidade, parar sossegada numa esplanada ou recolher-me no último andar de uma livraria para aconchegar a alma e o corpo numa belíssima chávena de chá enquanto chove lá fora ou enrolar-me num cachecol, pôr gorro e luvas e perder-me nas multidões num mercado de um qualquer Sábado ou Domingo de manhã e posso escrever e posso amar e posso observar e sentir sempre. E vem isto a propósito desta vontade que me deu de regressar a Berlim, a culpa é das fotografias e do 9 de Novembro. Agora que se aproxima o Natal prevejo Mercados de Natal em cada ponto da cidade e para todos os gostos, tradicionais ou alternativos, e imagino-me, mau grado o meu desamor ao frio, aconchegada em casacos e cachecóis, as mãos protegidas por luvas enquanto o tempo pára no primeiro gole de Glühwein. E era para dar asas a este ímpeto que eu queria o dito guito europeu, para poder decidir hoje que amanhã vou beber um Glühwein a Berlim sem que isso causasse mossa no orçamento ou que tivesse sequer de fazer contas. Um verdadeiro perigo, pensando melhor e a bem de todos, é até bom que nem saia.
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Domingo, Novembro 01, 2009
Berlim (1)
Em evocação de uma das cidades europeias mais fascinantes e dos 20 anos da Queda do Muro de Berlim até dia 9 vai haver fotografias minhas da cidade.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Nesta data querida
Para pessoas especiais, tratamentos especiais, por isso aqui vai um girassol do meu jardim com todo o carinho e votos de uma belíssimo aniversário. A menina das estrelinhas faz hoje anos. Sem ela este blogue seria muito mais sombrio. Muitos parabéns, querida C.!
E agora ide lá, estimados comentadores, e deixai uma palavrinha carinhosa à nossa C. Ela merece tudo e eu gosto muito dela.
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Aquela altura
Chegou aquela altura. Não aquela altura do mês. Aquela altura do ano em que a criançada entra na rua e vem direitinha à minha porta a pedir guloseimas. Para que não falta nada fui hoje abastecer-me de rebuçados, chupas, moedas e bolinhas de chocolate, chocolates e línguas-de-gato, um saco imenso a abarrotar e uns quarenta euros mais leve. Estou tentada a meter a despesa no IRS.
Domingo, Outubro 25, 2009
O Prozac, depressa!
Já não me chegava a neurose invernosa, o humor outonal, ainda tem de anoitecer às seis da tarde? Mas quem, quem é se lembrou de mudar a hora?
Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Embora não lhe possa agradecer a gentileza com os Jimmy Choo, fico muito sensibilizada com esta referência. Obrigada, Laetitia.
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Coisas que me apoquentam
Fui só eu ou também ouviram António Lobo Antunes na entrevista de hoje a dizer há-dem? Agradece-se a confirmação na caixa de comentários. Grata pela atenção.
Momento sitemeter (Especial FarmVille)
Sumiu a galinha e sumiu no Farmville. Foi por isso que alguém veio parar a este blogue através do apelo desesperado no google farmville galinha sumiu. Se a vir a rondar a minha quinta terei todo o gosto em restituí-la, até porque as galinhas só ocupam espaço e rendem umas míseras oito moedas quando se lhes apanham os ovos.
Quarta-feira, Outubro 21, 2009
O livro
Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite a uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: A Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ele responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari porque fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.
Também no Delito de Opinião
Também no Delito de Opinião
Acontece
Acontece que eu sou mulher comichosa e na minha condição de comichosa não só gosto com exijo saber o que me fazem ao corpo quando o entrego às mãos dos médicos, essa classe profissional a quem devem ter retirado o relógio assim que se estrearam na profissão. Podem mexer e remexer, dentro dos limites, é certo, conquanto me expliquem em que consistem as suas incursões.
Acontece que a minha mãe é rapariga menos comichosa do que a filha. Nesta sua condição está-se literalmente nas tintas para o que lhe fazem ou deixem de fazer os médicos desde que a tratem bem e rápido. Não quer saber e dispensa descrições pormenorizadas de procedimentos cirúrgicos.
Acontece que a primeira vez que ela foi ao oftalmologista ele fez um relato pormenorizado, consubstanciado e minucioso de todos os procedimentos que intentará um dia destes. Injecções para aqui, injecções para ali, dormências e imobilizações.
Acontece que há médicos que parecem ser feitos da mesma cepa, que terão lido na mesmíssima cartilha e que afinarão pelo diapasão comum. Foi por isso que na segunda visita ao médico, outro por sinal, se seguiu a repetição exaustiva da primeira descrição já de si pormenorizada. Injecção para ali, injecção para aqui, um pequeno hematoma provavelmente, caso apanhe um vaso, uma picadela aqui, ali e acolá.
Acontece, senhores doutores, que a minha mãe não quer saber. Quer ser tratada de forma profissional e competente, a ritmo acelerado e vir para casa quanto antes. Entendem? Podem, se faz favor, parar com as injecções, picadelas e hematomas? E já agora, arranjem um relógio, que o povo tem mais que fazer do que ficar horas a fio à espera que se dignem a chegar. Grata pela atenção.
Terça-feira, Outubro 20, 2009
A ira divina
Calma, São Pedro. Eu sei que o Saramago anda a mandar umas bocas que têm deixado alguns católicos eriçados. O resto do povo não tem a culpa e não era preciso esta intempérie. Dá lá a outra face e deixa-te de coisas que já estás velho para birras.
Domingo, Outubro 18, 2009
Sexta-feira, Outubro 16, 2009
Onde não estou
Em mim vive um bicho rebelde que raramente aceita um não porque não, a menos que seja dada uma justificação corroborada pela razão ou o coração esteja em causa. Nessa situação o não, o mais pequenino e insignificante indício de que um não virá a caminho será o suficiente para me deixar quieta sem mais resposta, os sentimentos não se devem pedir, nunca pedinchar e jamais suplicar. Este bicho rebelde que me acompanha desde sempre faz com que, por exemplo, me apeteça o oposto daquilo que posso fazer apenas porque o oposto me soa a uma libertação remota daquilo que me ocupa no momento e que me tolhe os movimentos, tarefas aborrecidas, chatas, enfadonhas, entediantes. Se estiver numa sala fechada a ouvir barbaridades ou banalidades quero de imediato fugir, se estiver na rua apenas porque sim quero ir para dentro da sala porque me parece melhor, sem as barbaridades e dispenso as banalidades. Deve ser, pois, por este ataque tardio de adolescência rebelde que desconfio ter-se tornado num traço de personalidade que agora, justamente agora, neste exacto momento em que o trabalho parece fêmea em plena procriação, me apetece escrever. Quando finalmente o trabalho abrandar e me puder dar ao luxo de umas horas sem cabeça nem corpo ocupados neste mester de ser professora e formadora, sei, ah se sei, que me vou abandonar meio inerte com o ecrã branco à minha frente e vou argumentar Estou tão cansada que nem me apetece escrever… e não é porque esteja cansada, é porque posso e quando posso já não quero.
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
A outra mulher
Os dias, o período, as regras. Diz-se, e a ciência corrobora, que na segunda metade do ciclo feminino regido por luas e hormonas envoltas em processos químicos e alquímicos misteriosos, as mulheres se metamorfoseiam em seres irritadiços e intolerantes, regidas por Marte e abandonadas por Vénus. Tão sensíveis como cristal da Boémia, tão deprimidas quanto a Marcella de Kirchner, e tão mas tão infelizes que poderiam ser peças fundamentais nos talk-shows matutinos, desfiando desgraças como se descascam ervilhas e se deixam, às desgraças, derrubar-se umas sobre as outras até formarem um promontório de lamúrias e infortúnios, uma pirâmide de desaires e desgraças.Distam pois uns quatro anos bem medidos, quando, acometida pela instabilidade da serotonina comandada pelas hormonas diabólicas sofri publicamente de tensão pré-menstrual. Era Maio findouro, o crepúsculo anunciava-se por trás do palco em meia-lua, projectando imagens de defensores dos direitos humanos, amantes da paz e lutadores pela liberdade. Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá ao som do Imagine de John Lennon cantado por Rui Veloso e tocado por Gilberto Gil. Apoderou-se de mim uma força interior, pujante na alma e, à medida que o sol se escondia e a música subia, o sentimento desfez-se em água que se me brotou inevitável pelos olhos.
Incompetente absoluta na capacidade de chorar por emoção outro remédio não tive, senão resguardar-me nos óculos de sol, incriminar a poeira de me ter afectado as lentes de contacto e causado irritação e remeter-me à mais rotunda evidência: eram os dias, o período, a famosíssima tensão pré-menstrual, o álibi que homem algum ousa questionar e que as mulheres respeitam, reverentes e solidárias. Podia pois abandonar-me ao momento de pura emoção sem que me fossem feitos interrogatórios, os primeiros encetados de mim para mim, inquiridora-mor de mim mesma Tu? A chorar? Estás bem? e silenciosamente acomodar-me ao novo estatuto de criatura emocionável e choraminguenta.
O primeiro aviso ter-me-ia sido dado no dia em que, ladeada por dois soneros em plena Plaza de las Armas, em Havana, me foi cantado o bolero que me acompanhará enquanto memória me for possível Dos Gardenias para ti. A emoção do momento desestabilizou-me o sorriso que saía tímido e desajeitado, os olhos lacrimejantes, contam-me. Acreditemos, contudo, que estariam longe os dias fatídicos e as hormonas a banhos lá para Varadero. Engoli as lágrimas e sacudi a emoção.
E andava eu tranquila na minha vida quando nos últimos quinze dias me vi abalroada pelas forças intangíveis que se me perturbam os últimos resquícios de fleuma. Duas vezes em quinze dias. Uma em Londres ao som do Who wants to live forever? no musical We will rock you, a outra Sábado passado perante a presença avassaladora de Caetano Veloso em palco cantando-me Você é linda. Com tanta proximidade não há hormonas, dias ou regras que me valham. Admitirei pois que sou apenas outra mulher.
E fui repescar esta crónica antiga porque há instantes quando parei para ouvir isto por imperativos profissionais estava com pele de galinha e tinha uma lágrima teimosa a querer embaciar-me o dia luminoso que nos abraça lá fora. Raios.
Terça-feira, Outubro 13, 2009
Puro ódio
Há dias em que odeio a minha profissão. Esses dias são aqueles em que perante um imprevisto que hipoteticamente me obrigue a faltar, doença ou morte de alguém que embora querido não consta nas minhas relações consanguíneas, a primeira coisa que me surge como um martelo pneumático no ouvido é a constatação Não posso faltar! Ou a inquirição perante mim própria antes que verbalize seja o que for E agora, como é que vou fazer? E ainda Quem me vai substituir? e em última análise, por cima de tudo e de todos Tenho de ir fazer uma ficha de substituição. Igual quem vive ou morre, igual se precisam de mim. Nesses dias, como hoje, por exemplo, odeio-a, odeio-a com toda a força da minha alma e por inerência odeio todos os que me obrigam a colocar a minha vida profissional acima da minha pessoal, que, convenhamos, também tenho, caso dúvidas subsistissem para aquela gente que pare leis lá para São Bento. E não quero saber se se abusou da lei, se se cometeram excessos no passado e se agora paga o justo pelo pecador. Não tendo sido um desses, continuo a pagar por todos os outros. Não me falem pois de mérito, de premiar os melhores, de distinguir o trigo do joio e de trazer justiça à profissão. Há dias em que odeio a minha profissão.
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Ufa
Acabaram as legislativas. Acabaram as autárquicas. Agora já posso prosseguir com a minha vida e finalmente saber quem vai substituir Maria de Lurdes Rodrigues na Educação.
Domingo, Outubro 11, 2009
É tudo gente morta...
dizem eles. Na verdade estão vivinhos e recomendam-se, além de lá estar o Manuel S. Fonseca com quem prazeirosamente partilhei as terças-feiras nos meus tempos do PNETMulher. Espreitem aqui.
Sábado, Outubro 10, 2009
Confissões de uma bibliófila incurável
O meu problema com os livros é que gosto de livros e gostando de livros não me fico apenas pelo mundo que albergam nas letras em carreirinha páginas fora até ao último ponto ou derradeira palavra. Gosto do livro, do objecto, das letras na contracapa, das capas e gosto de me sentir acompanhada por eles. Seria incapaz de viver numa casa sem livros. Caso que me queiram infligir um castigo maior, podem fechar-me num espaço despojado de livros. Por oposição, um espaço coroado de livros oferece-me a tranquilidade longe do mundo como se não tivesse havido ontem nem amanhã acontecesse, o tempo pairasse indelével entre estantes e lombadas e Cronos abrisse um parêntesis na sucessão de momentos a que se convencionou chamar dias ou meses. Mas o meu problema com os livros é que gostando deles perco-me até por edições novas das mesmíssimas obras, as mesmas que li e que tenho, apoderando-se de mim um misto de gula de os devorar e de luxúria de os possuir. Aconteceu-me mais uma vez quando me cruzei com a última edição de Os Cus de Judas a propósito da comemoração dos trinta anos de carreira literária de António Lobo Antunes. Um ímpeto irresistível que me levou a passar-lhe os dedos sobre a capa levemente rugosa e a tentação das tentações: o perfume único que exalam as páginas acabadas de imprimir. O livro é o mesmo, o mesmo que terei lido há trinta anos, o miolo apenas com pequenas correcções fixadas na edição ne varietur que também tenho em casa, por sinal autografado pelo autor num dia de calor à sombra dos jacarandás. E lá veio a gula, logo a seguir a luxúria. Decididamente tenho um problema com os livros.
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